As Brumas de Avalon – Marion Zimmer Bradley

Sabe aqueles livros que tu acaba e fica órfão? É exatamente isso que tá acontecendo comigo desde que acabei o As Brumas de Avalon. Felizmente comecei a ler pelo livro “A Senhora da Magia”, sétimo livro da série “Ciclo de Avalon” e primeiro dos volumes da subsérie “As Brumas de Avalon”, então logo vou poder matar a saudade de toda essa mitologia lendo os seis livros anteriores.

“As Brumas de Avalon” é dividido em quatro volumes (curtinhos) e contam o mito do Rei Arthur sob o ponto de vista das mulheres que viveram a história. Guerras são comentadas, mas de forma super superficial (houve a guerra, quem morreu…). O livro é realmente focado na vida das mulheres, nas sacerdotisas de Avalon, que lutam por manter a deusa viva, e na ascensão do cristianismo na Inglaterra do século V.

Como existem várias versões da lenda do rei Arthur, alguns fatos e inclusive as relações familiares são diferentes de outros livros que abordam o tema. Se você já leu outros livros, pode achar estranho algumas relações e os nomes (Gwenhwyfar é Guinevere, por exemplo).

O post pode ter spoilers para quem não conhece nada sobre a lenda.

Uma das primeiras coisas que percebi e me prendeu no livro: o poder e a liberdade que as mulheres tinham naquela religião pagã. Se tivéssemos continuado daquela forma, as coisas seriam muito diferentes. A mudança das religiões pagãs para o cristianismo é a principal linha da trama e dá para acompanhar isso durante todo o livro. Um exemplo é a conversão de Igraine, mãe de Morgana e Arthur, que foi criada em Avalon, mas que por ser casada com um rei que deveria ser cristão, se resignou ao cristianismo.

“Sabia que ele estava descontente porque ela não lhe dera o filho tão desejado – os romanos estabeleciam a linhagem pelo ramo masculino, e não pelo feminino, o que seria mais sensato. Era tolice, pois como poderia um homem ter absoluta certeza de quem era o pai de qualquer criança? É claro que eles se preocupavam muito com quem se deitavam as mulheres, e fechavam-nas e espionavam-nas.”

“O destino de uma mulher era ficar sentada em casa, no castelo ou na cabana – havia sido assim desde a chegada dos romanos. Antes disso, as tribos celtas seguiam os conselhos de suas mulheres, e mais ao norte existia uma ilha de mulheres guerreiras que faziam armas e ensinavam os chefes a usá-las.”

Os livros se passam em um período de aproximadamente 70 anos, o cristianismo ascende e Avalon desaparece nas Brumas, saindo do mundo real, como teria acontecido anteriormente com o País das Fadas e Atlântida. O livro conta a história desde antes de o Arthur nascer até depois de sua morte.

A principal personagem, que em muitas versões é descrita como uma feiticeira má, é Morgana, irmã de Arthur. Eu não vi ela como uma pessoa má, ela é uma mulher bem real, muito forte, mas que sofre bastante.

“E por que o rei deveria me dar, como se eu fosse um de seus cavalos ou cães?, pensou Morgana, mas deu de ombros. Vivera muito tempo em Avalon, esquecendo-se de que os romanos haviam criado essa lei, segundo a qual as mulheres eram propriedade dos homens.”

Muitos personagens passam muito tempo oscilando entre as religiões pagãs e o cristianismo. Arthur, que apesar de ter jurado proteger todo o povo, independente das crenças, começa (por influência da esposa Gwen) a se tornar cristão, e a descumprir a promessa feita à Avalon, que o colocou no poder, lhe deu a espada Excalibur e uma bainha bordada com magia por Morgana (magia essa que não permitia que ele sangrasse muito). Com o passar dos anos, além de Arthur adotar os costumes cristãos, começou a proibir os costumes pagãos.

O que realmente me incomoda nessa história é a hipocrisia. Gwen insistiu para impôr o cristianismo para todo o povo porque como rei, Arthur “precisava cuidar da alma das pessoas, não apenas do corpo” (pensar que ainda hoje as pessoas querem cuidar da vida das outras dizendo que elas não podem fazer A ou B porque vão pro inferno…). Mas seguir o que os padres falavam era só quando era conveniente (como também continua sendo).

Rola traição, rola sexo a três, rola poção da bruxa da Morgana (agora tudo bem ela ser bruxa, inclusive, que bom que ela é bruxa!), mas a Morgana é má porque não crê em Cristo. E isso acontece com vários personagens. Eles colocam as mulheres de Avalon como pessoas ruins, mas quando é conveniente, usam do poder delas. Arthur proíbe os cultos pagãos, as fogueiras de Beltane, mas se nega a devolver a Excalibur e a bainha com magia para Avalon.

Segundo os padres, mulheres não deviam ter poderes, e Gwen acha absurdo que Mourgase (tia de Arthur) governe as terras do falecido marido. Mas, maaas, ela também quer governar, e mesmo que por trás de Arthur, consegue. Tanto faz que consegue aos poucos convencer Arthur que aquele reino é um reino cristão (eu achei Arthur uma pessoa tão manipulável…). Sobre a Gwen, apesar de sentir raiva dela, também sinto pena. Comparado com as mulheres de Avalon, ela é uma coitada que passou a vida se culpando por simplesmente existir, com medo de tudo, inclusive de deus. Um fato recorrente que acontece é os personagens se perguntarem como é possível Morgana e outros pagãos serem representantes do demônio (não cristãos) e serem pessoas boas e amáveis.

“Elaine conjeturou quais sonhos perseguiam a irmã do rei. Sem dúvida seriam maus sonhos, pois ela vinha daquela ilha maligna de bruxas e feiticeiras… Mas Morgana nunca lhe dera a impressão de ser má. Como alguém podia ser bom, se adorava diabos e rejeitava a Cristo?” 

Até 100 anos antes de começar a história, o cristianismo e as religiões pagãs viviam em paz, cada um cultuando quem queria, sem imposição, tipo estado laico de verdade. Todo o plano da grã-sacerdotisa de Avalon para impedir o cristianismo de dominar o reino e preservar Avalon e a deusa causa muita dor durante esse período. Dor por decisões tomadas pela grã-sacerdotisa para a vida de outras sacerdotisas de Avalon, dor pelas sacerdotisas por não compreenderem o que acontecia, dor pelas traições, esses eventos acontecem nos quatro livros e são essenciais para a história seguir o rumo que seguiu. Com o passar dos anos, Morgana compreende o porquê de tudo ter acontecido da forma que aconteceu e fica em paz.

Antes da morte de Arthur, as insígnias sagradas de Avalon são levadas para Camelot e o “santo graal” (em Avalon o cálice tinha outro nome) é apresentado para todos na festa de Pentecostes. A deusa aparece com o cálice, porém dá força para a lenda do graal. Em parte se discute que a deusa fez isso para separar os cavaleiros de Arthur, que deixam Arthur sozinho em Camelot, apesar de ter virado um forte símbolo cristão. Antigas deusas pagãs (deusa celta Brígida, da Irlanda) passam a ser cultuadas pelos cristãos, e Avalon vai perdendo poder.

O livro é excelente. Recomendo para todos. Recomendo principalmente para meninas e mulheres. Ver o poder da mulher no século V e como isso nos foi tirado e ainda hoje lutamos para tentar fazer diferente, e é possível fazer diferente, é incrível. O mito dos deuses de Avalon faz muito sentido para mim, eram religiões pacíficas (às vezes haviam oferendas de animais), as pessoas respeitavam a natureza, os ciclos da natureza, os outros deuses (todo mundo podia viver de boas, acreditando na deusa, em Jesus ou no espaguete voador).

Em 2001 saiu um filme baseado no livro, ainda não assisti, mas são 3 horas de filme!

filme
Elenco do filme “As Brumas de Avalon”

 

Leia também os outros livros da série Ciclo de Avalon: A Queda de AtlântidaOs Ancestrais de AvalonOs Corvos de AvalonA Casa da FlorestaA Senhora de Avalon

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14 comentários sobre “As Brumas de Avalon – Marion Zimmer Bradley

  1. Giovanna Nunes

    O Livro é ótimo, foi uma das primeiras sagas que eu li. Ganhei da minha tia de aniversário de 12 anos e, apesar de ter conteúdo bem adulto para mim na época, adorei. Mesmo eu sendo muito mais livros de “final feliz”, Avalon foi minha primeira revolta com a imposição do cristianismo e a objetivação das mulheres.
    Eu assisti o filme que foi feito e posso dizer que tem muitas partes diferentes do livro (O que é esperado de qualquer adaptação, mas na época eu não sabia disto e fiquei muito decepcionada) mas é interessante ver o que você imaginou em imagens. Super recomendo assistir!
    Muito bom seu artigo, gostei muito! Principalmente da parte onde você cita pedaços dos livros… Isso é bem diferente e muito mais interessante!
    Continue assim!
    Beijos

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oi Giovanna, fiquei feliz que gostou do artigo. 🙂
      Acabei o livro sem saber como não tinha lido antes, queria que alguém tivesse me apresentado esse livro quando era adolescente, com certeza teria me feito bem. Já está na lista de livros que vou dar para minha sobrinha quando ela entrar na adolescência.
      Sobre o filme li comentários falando que vale muito a pena assistir, e outros falando que quem gostou do livro não deve assistir… Ainda estou pensando, acho que vou dar um tempinho e assistir depois, com a mente mais aberta, porque afinal, como tu disse, adaptação é adaptação. E com uma história tão longa, com certeza muita coisa importante ficou de fora. Depois que assistir, eu conto aqui o que achei.
      Beijos!

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