1808 e 1822 – Laurentino Gomes

1808 – Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil” e “1822 – Como um homem sábio, uma princesa triste e um escocês louco por dinheiro ajudaram D. Pedro a criar o Brasil – um país que tinha tudo para dar errado” não são romances, são livros-reportagem sobre a história do Brasil, Portugal e da corte no começo do século XIX até aproximadamente 1835. Apesar de não ser romance, a leitura é muito gostosa e que flui muito fácil.

1808-1822_

Já fazia alguns anos que eu queria ler esses livros (e o 1889, que ainda está na fila). Apesar ter aprendido nas aulas de história sobre o Brasil, lembrava de poucos detalhes. O Laurentino Gomes consegue contar a história para leigos de forma interessante e leve. A história do 1808 foi muito fácil de ler e se envolver. 1822 repete algumas partes contadas em 1808, e em geral a história foi menos envolvente. Eu tinha a ideia de que desde a chegada na corte ao Brasil até a independência, tudo tinha sido meramente decidido pelos portugueses e que o povo brasileiro aceitou tudo pacificamente. Não fazia ideia de toda a luta de diferentes grupos nos anos 1820, e as diferenças de pensamento entre os representantes que voltaram para Portugal e os que ficaram no Brasil, em 1821.

Mais complicado foi encontrar habitação para os milhares de acompanhantes da corte, recém-chegados à cidade que ainda era relativamente pequena, com apenas 60 000 habitantes. Por order do conde dos Arcos, criou-se o famigerado sistema de “aposentadorias”, pelo qual as casas eram requisitadas para uso da nobreza.

Alguns nomes importantes da história, que sabemos da existência mais porque ruas receberam seus nomes do que por de fato conhecermos suas histórias, tem a vida contada com mais detalhes. Um desses personagens é José Bonifácio, um personagem que juntamente com a princesa Leopoldina, foi decisivo para a independência do Brasil. José Bonifácio e D. Pedro eram abolicionistas, infelizmente por parcerias políticas, tivemos mais quase 70 anos de escravidão.

Carlota, as filhas princesas e outras damas da corte tinham desembarcado com as cabeças raspadas ou cabelos curtos, protegidas por turbantes, devido à infestação de piolhos que havia assolado os navios durante a viagem. (…) Dentro de pouco tempo, quase todas elas [as mulheres do Rio] passaram a cortar os cabelos e a usar turbantes para imitar as nobres portuguesas.

Graças à ida da Corte para o Brasil, várias decisões boas para o Brasil foram tomadas. Os portos foram abertos, o que levou ao comércio com outros países, principalmente Inglaterra. É engraçado o tipo de objetos que foram exportados da Inglaterra para o Brasil (por exemplo, casacos de pele, patins de patinação). Até então, impressoras eram proibidas, para evitar a transmissão de ideias que iriam contra as ideias da corte. Com a chegada da corte, a imprensa e os livros foram “permitidos”, faculdades foram criadas, e houve uma evolução maior nos poucos anos em que a família real ficou no Brasil do que os anteriores 300 anos de colonização.

O que se viu em 1822 foi, portanto, uma ruptura sob controle, ameaçada pelas divergências internas e pelo oceano de pobreza e marginalização criado por três séculos de escravidão e exploração colonial. Ao contrário dos Estados Unidos, onde a independência teve como motor a república e a luta pelos direitos civis e pela participação popular, no Brasil o sonho republicano estava restrito a algumas parcelas minoritárias da população. Quando apareceu nas rebeliões regionais, foi imediatamente reprimido pela Coroa. Por isso, o caminho escolhido em 1822 não era republicano nem genuinamente revolucionário. Era apenas conciliatório. Em vez de enfrentadas e resolvidas, as antigas tensões sociais foram adiadas e amortecidas.

Ótimos livros para conhecer mais sobre a história do Brasil, o Brasil e a população do começo do século XIX. Temos um retrato (feio e triste) do Rio de Janeiro. No fim, a sensação é que as coisas poderiam ter acabado muito pior, mas é difícil imaginar terem dado muito melhores…

A urina e as fezes dos moradores, recolhidas durante a noite, eram transportadas de manhã para serem despejadas no mar por escravos que carregavam grandes tonéis de esgoto nas costas.

[Os escravos] eram usados até para rezar Ave-Maria, em frente aos oratórios espalhados pela cidade na intenção de seus senhores.

A chegada da corte no Brasil me deixa dividida: grandes avanços só foram feitos porque eles fugiram para o Brasil, e se isso não tivesse acontecido, acho que estaríamos pior do que estamos, mas a exploração do povo brasileiro também aumentou.

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