Anna Kariênina – Liev Tolstói

“Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira”

1

Anna Kariênina foi meu primeiro contato com Tolstói. Como já mencionei em outro post, não sei exatamente o que aconteceu, mas em 2016 ouvi muita gente falando sobre russos, especialmente Tolstói e Dostoievsky. E não é só impressão, os livros do Tolstói estão entre os mais vendidos na Amazon. Desconfio que uma das razões seja o fim da Cosac Naify. E acompanhando a moda, resolvi ler Anna Kariênina (Guerra e Paz já está há tempos na minha lista de leituras, mas resolvi começar por alguma coisa menor).Comecei a ler sem saber quase nada sobre a história, tomei um spoiler importante logo antes de ler (se é que se pode chamar de spoiler ficar sabendo da história de um livro de mais de 100 anos). É um calhamaço (800 páginas), e se você espera que o personagem principal apareça desde as primeiras páginas, esse não é um livro para você.

Anna Kariênina é um livro sobre a sociedade russa no século 19, rotinas, cultura, momento histórico. O obra trás contrastes dessa sociedade: a vida da alta sociedade (uma alta sociedade que vive muito de aparências, em alguns casos é tem mais aparência do que dinheiro) e dos mais pobres trabalhadores rurais, a vida em São Petersburgo, Moscou e na área rural, a vida de família felizes e famílias infelizes.

“Não há situação a que a pessoa não possa habituar-se, sobretudo quando vê que todos à sua volta vivem assim.”

O livro se passa em torno da vida de diversos personagens, entre eles a Anna Kariênina (também chamada de Anna Arcádievna).

Uma coisa muito importante para ter em mente quando ler: esse livro foi escrito entre 1873-1877. Tem que ler tendo em mente que a sociedade era diferente, era machista, e a parte mais importante da vida de uma mulher era o parto (depois do casamento, claro). Não dá para ler pensando no contexto atual (e olha que mesmo no contexto atual tem gente que se comportaria exatamente como no século 19).

“Notava que as jovens da idade de Kitty formavam certas associações, frequentavam certos cursos, tratavam os homens com liberdade, andavam sozinhas pela rua, muitas não faziam uma reverência ao cumprimentar e, sobretudo, tinham todas a firme convicção de que cabia a elas, e não aos pais, a escolha do marido.”

“(…) à espera do principal acontecimento da vida da mulher” – se referindo ao parto. 

Sobre os personagens e a história: gostei muito do livro, quero assistir a série produzida em 2013. Comecei adorando a Anna, com o tempo fiquei com raiva e depois com pena. A Anna passa por muitos conflitos, precisa fazer escolhas, tem algumas atitudes muito hipócritas (quando critica uma outra mulher da sociedade pela forma como agiu, que por coincidência, foi exatamente como a Anna agiu). Apesar de todas as escolhas feitas, ela se sente em conflito com isso. Se sente em conflito também por estar bem com essas escolhas. E vive esses conflitos a ponto de ficar paranóica com a vida.

“Quer me parecer que Anna Arcádievna tem tudo o que ela mesma quis” – Aleksiei Aleksándrovitch

Outro personagem importante, que gasta boa parte do livro, é Liévin, que fez minhas emoções vacilarem. Em alguns momentos achei ele um querido, depois um escroto, no final estava ok com ele. É difícil se colocar no lugar de um personagem privilegiado do século 19, que acha que a educação que ele recebeu foi importante para ele ser quem se tornou, mas não acha que os mujiques (trabalhadores rurais) precisem de educação. Ele é bastante deprimente em boa parte do livro, e a partir de uma parte do livro, começa a tentar encontrar sentido na religião (ele era ateu).

“Eu trabalho, desejo fazer uma coisa, mas esqueci que tudo termina, que existe a morte.”

Ver o talento das mulheres para certas profissões e saber que elas exercerem uma profissão estava fora de questão é frustrante (claro, mulheres da alta sociedade, mulheres pobres trabalhavam).

Além das partes que nos incomodam porque seriam absurdas hoje (machismo, exploração dos trabalhadores,…), o livro também traz algumas partes “engraçadas” para o contexto atual.

“(…) da morte do último menino (…) daquele caixãozinho miúdo e cor-de-rosa”

“E traga ópio da farmácia”

E algumas coisas que dá para acreditar que foram escritas hoje!

“Hoje em dia, os pais nem têm o direito de viver, é tudo para os filhos”

O tamanho do livro pode ser um pouco intimidante, mas a leitura é super gostosa e flui fácil. Conversei com uma russa sobre o livro, e é o tipo de leitura que os russos precisam fazer no ensino médio (Tolstói e Dostoievsky)!

Aonde encontrar o livro: Amazon

Anúncios

12 comentários sobre “Anna Kariênina – Liev Tolstói

  1. Lais

    Dei risada a hora que você falou que queria começar por um livro menor do autor, um de 800 páginas!!!
    Eu assisti já a um filme e uns episódios da série, e sempre tive vontade de ler. Uma ver na livraria peguei para comprar, fui na maquininha ver o preço e estava custando R$125,00 reais! Bom, na minha singela opinião, talvez a Cosac Naify pode ter falido justamente por ter preços exorbitantes.
    Depois que faliu comprei a versão online por R$5,90, espero em breve lê-lo.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Comparado com Guerra e Paz, Anna Kariênina é pequeno…
      Concordo contigo sobre a Cosac. Os livros são lindos, mas o preço era pra poucos…
      Também comprei vários eBooks deles por R$5,90 e depois R$3,90. Pena que não tem Guerra e Paz com a tradução de Rubens Figueiredo em eBook.
      Depois que ler, me conta o que achou!
      bjs, Rafa

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s