Heavenly Intrigue: Kepler, Brahe e o assassinato por trás de uma das maiores descobertas científica

A minha primeira lembrança sobre Tycho Brahe sempre foi: havia morrido porque a bexiga estourou depois de um jantar e que havia trabalhado por 20 anos com as observações que depois foram usadas por Kepler para desenvolver as 3 leis de Kepler. Era tudo o que eu sabia, achava injusto a lei de Kepler não ser Kepler-Brahe, mas vivi com isso até janeiro desse ano, quando discutindo com amigos, discutimos que o Kepler poderia ter matado o Brahe para usar os dados sem dar os devidos créditos e eis que encontro esse livro: “Heavenly Intrigue, Johannes Kepler, Tycho Brahe, and the Murder Behind One of History’s Greatest Scientific Discoveries” – Joshua e Anne-Lee Gilder. Comprei o livro (a compra do livro é uma história a parte, comprei o livro TRÊS vezes para conseguir receber, e no fim, recebi 2).

O livro é bem interessante, conta a vida do Tycho Brahe e do Johannes Kepler, incluindo o contexto histórico e apresenta especulações sobre a possível causa da morte do Brahe.


Tycho nasceu na Dinamarca em uma família nobre, mas foi contra tudo o que um nobre deveria fazer: se apaixonou e seguiu suas paixões, primeiro pelo céu e resolveu estudar astronomia e depois por Kirsten, uma mulher pobre com quem se casou. Criou equipamentos para observar os astros e coletou dados super precisos por 40 anos. Kepler nasceu na Alemanha em uma família pobre e violenta, e passou por maus bocados na infância. Queria estudar teologia, mas foi empurrado para dar aulas de matemática. Era super inteligente e sua inteligência era reconhecida.  Se casou com uma viúva rica, por interesse. Criava muitos inimigos por onde passava.

O encontro dos dois se dá em 1599, após Kepler enviar para Tycho a teoria dele para o sistema solar, baseada nos sólidos platônicos. A resposta do Tycho foi: sem dados acurados não vais conseguir desenvolver a tua teoria. Por sinal, tenho esses dados. Se quiser, pode vir trabalhar comigo. 

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Estátua do Brahe e do Kepler em Praga

Nessa altura da vida, já haviam roubado dados do Tycho (um cara chamado Ursus), então ele era cuidadoso em não deixar todos os dados disponíveis para assistentes como o Kepler, que ele mal conhecia. Ele estava trabalhando para publicar os 40 anos de observações em uma tabela (Rudolphine Tables) e os assistentes o ajudavam a terminar os cálculos. Os dados do Tycho eram incrivelmente precisos para a época.

Kepler era um sociopata. Arrumava inimigos em todos os lugares (muitos acho que nem sabiam que eram inimigos). Felizmente ele escreveu um diário, no qual ele se referia a si mesmo em terceira pessoa e conta todas as suas tretas. Eu fiquei na dúvida se ele só tinha problemas psiquiátricos ou se era mau cárater mesmo. Ele foi trabalhar com o Tycho, que estava super de boa vontade, e ficava fazendo umas exigências que já haviam sido concordadas. Prometeu não divulgar os dados com os quais estava trabalhando, mas não cumpriu a promessa. Tentou convencer outras pessoas a pedir para o Tycho publicar, pelo bem da astronomia, os dados o quanto antes. Depois da morte do Tycho, roubou os dados, e após negociação com a família, prometeu não publicar nada que envolvesse a tabela sem o consentimento da família Brahe e novamente não cumpriu.

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Tycho Brahe morreu em 24 de outubro de 1601. A causa oficial da morte foi a bexiga ter estourado após um banquete no qual ele bebeu bastante e não urinou. Porém houve especulações na época sobre ele ter sido envenenado. Em 1901, o corpo do Brahe foi exumado, e ainda havia tufos de cabelo, que foram retirados e guardados no Museu Nacional de Praga até o fim da União Soviética, e posteriormente foram dados de presente para a Dinamarca.

O que fazer com pedaços de cabelo e bigode de um grande astrônomo morto há 400 anos? Pesquisa! Já que houveram especulações sobre envenenamento logo após a morte de Brahe, então vamos tentar descobrir se pode ter realmente acontecido um assassinato. Nos anos 50, Bent Kaempe, toxicologista, analisou os fios com espectroscopia de absorção atômica, e encontrou uma quantidade alta de mercúrio (Hg), mas não alta o suficiente para ser do embalsamento do corpo. Em 1996, Jan Pallon teve acesso a um fio que ainda possuia a raiz do cabelo. Decidiu escanear esse fio usando a técnica PIXE (Emissão de raios X induzidos por partículas), com a qual é possível saber quais elementos estão presentes em uma amostra e a concentração. Diferente da espectroscopia de absorção atômica usada por Kaempe, na qual ele olhou para o fio como um todo, no escaneamento, é possível ver em que região do fio estão concentrados os elementos. A pesquisa de Pallon mostrou alta concentração de mercúrio (Hg) na raiz do cabelo. Calculando o crescimento do cabelo com o tempo, foi observado a ingestão de uma dose de mercúrio aproximadamente 13 horas antes da morte de Brahe.

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Mapas elementares do fio de cabelo do Tycho Brahe

Com esses dados, as informações históricas, cartas e diários, os autores constroem o cenário no qual Kepler tinha os motivos e meios para matar Brahe. Outras hipóteses também são levantadas e discutidas (ter sido realmente problema de bexiga, Brahe ter tomado por acidente o mercúrio, ter sido assassinado por outras pessoas).

No fim as tabelas de Tycho só foram publicadas em 1627! Kepler publicou as duas primeiras leis de Kepler em 1609, em Astronomia Nova. Sem os dados do Tycho, muito provavelmente ele não teria chegado às leis, até porque em 1619 publicou um trabalho com os sólidos platônicos, Harmony of the World, que foi uma recapitulação do trabalho que ele queria publicar e o Brahe falou que ele precisava de bons dados empíricos para se basear.

O livro pode ser tendencioso e mostrar o melhor lado do Tycho e o pior do Kepler. Com relação ao Kepler, muitos dos pontos negativos foram escritos por ele mesmo (no diário Self Analysis). E aparentemente ele estava disposto a tudo para ser famoso:

Neither food nor clothing nor grief nor joy are a greater concern to him that men’s opinion of him, which he wants to be nothing but great.

Independente de ser apenas especulação, vale a leitura. Vale para conhecer mais esses astrônomos do século XVI, para conhecer mais a história da época e de regiões que normalmente não são estudadas (história da Dinamarca, por exemplo).

Infelizmente, o livro não foi traduzido para português, mas está disponível em inglês na Amazon.

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5 comentários sobre “Heavenly Intrigue: Kepler, Brahe e o assassinato por trás de uma das maiores descobertas científica

    1. Esse livro foi uma descoberta super por acaso. Claro que o livro pode ter influências de quem escreveu, mas o Kepler parecia ser uma pessoa pelo menos difícil de conviver. Queria ter acesso a mais do diário dele, pra ver se os autores só pegaram partes convenientes, ou se ele realmente era a pessoa apresentada no livro. Recomendo a leitura, é pelo menos uma visão da história. Fiquei impressionada como o Tycho era importante e reconhecido na época, ele desenvolveu vários equipamentos para observação e os dados adquiridos por ele tinham uma precisão impressionante para a época. Nos outros livros que li sobre história da física, ele aparecia como secundário e quase sem importância.
      Obrigada. Se ler o livro, me conta o que achou. 🙂

      Curtido por 1 pessoa

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